Domingo, 23 de Maio de 2010

Margem Sul State of Mind em Opinião


Margem Sul State of Mind

A música e a arte em geral sempre foram formas de intervenção pública por excelência. A já badalada ‘Margem Sul State of Mind’, lançada pelo Rui Unas e pela Diana Piedade, é o exemplo de como quatro minutos de humor e ironia podem ser um hino à Margem Sul e um sonoro alerta para os problemas com que nos deparamos, diferente na forma mas similar a tantos outros no conteúdo. Vale a pena ouvir e reflectir.

‘Props para o pessoal, que vive nesta margem; que gasta 1,30E quando passa na portagem’

Os acessos. A Margem Sul sofre de uma inaceitável discriminação negativa face à Margem Norte nos acessos à capital. O concelho de Oeiras é hoje uma extensão do mundo empresarial de Lisboa porque há acessos. A Margem Sul tem dois acessos a Lisboa, com o principal a ser pago e a estar totalmente esgotado. As soluções, algumas simples e sem necessidade de investimentos faraónicos, já foram apontadas: ponte Barreiro-Seixal, finalização do IC-32, alternativas à EN-10. Porque se espera?

‘Sempre que passo aqui, tremo tipo gelatina’; ‘É ver policia e ladrões jogar a apanhada’

A insegurança. É aqui que se localizam os bairros mais problemáticos do País, mas não é por isso que o efectivo policial aumenta ou que se deixam de suspender polícias por apanharem os ladrões. As Câmaras continuam a teimar contra a criação de Polícias Municipais que libertem as Autoridades para a sua missão mais urgente, que é garantir a segurança dos cidadãos.

‘Agora a praceta é parque de estacionamento’

O betão. A Margem Sul foi alvo de uma política de construção massiva, desordenada e não planeada e tais decisões passadas reflectem-se hoje na asfixiante mobilidade de cidades como o Barreiro, Almada ou Seixal. O crescimento dos prédios-cogumelos em altura não foi acompanhado de condições para estacionar ou de uma rede de transportes que impeçam o Rui Unas, ‘quando volta da discoteca às sete de la manhana, de ver as pessoas nas paragens em fila indiana’.

Como se não bastasse, as decisões actuais não têm contribuído para a melhoria da situação, com o estreitar cego de passeios, o encaixe de percursos de metropolitano em áreas sem capacidade para tal e a redução dos lugares de estacionamento em conjunto com a criação de empresas de caça à multa como a ECALMA.

‘É entrar numa loja, ouvir hip hop e Kuduro’; Para comprarmos DVD’s ou aquela Bike, bens de primeira necessidade como o chapéu da Nike’

A política social. A Margem Sul é uma imensa manta de retalhos social onde o Estado falha sistematicamente enquanto garante da coesão social, do acesso universal à educação e agente facilitador da criação de oportunidades e incentivos ao trabalho para aqueles ‘que falam com sotaque dos PALOP’ e não só que, em alguns casos, vivem à margem (e à custa) da sociedade. As Escolas podem ser muito mais aproveitadas para formar e guiar as novas gerações para outros ‘bens de primeira necessidade’, ajudando a construir um futuro diferente para quem, hoje, tem poucas ou nenhumas expectativas de ascensão social.

‘Margem Sul, sítio onde são feitos os sonhos, que só se dorme aqui’

O pecado original: a Margem Sul é uma imensa cidade-dormitório, dominada pelo betão e pela necessidade de encaixar toda uma classe trabalhadora que, todos os dias, se desloca para Lisboa, a grande metrópole. Para a Margem Sul passar também a ser o sítio onde os sonhos se realizam são necessárias mais estruturas, mais educação e políticas sociais, mais acessos, segurança e uma política amiga do investimento e da fixação de jovens. Nada disto tem acontecido, como este State Of Mind comprova. Não pode ser assim, não tem de ser assim. Temos de Mudar!

Tiago Alves no Setúbal na Rede

0 Comentários:

Enviar um comentário